100 anos da entrevista da cangaceira Anésia Cauaçu ao Jornal A TARDE

Sábado, 22/10/16

Há exatos 100 anos, dia 25 de outubro de 1916, coincidentemente data do aniversário de Emancipação Política de Jequié, o Jornal A TARDE trazia como manchete JEQUIÉ, Cauassus, Marcionilio e Zezinho dos Laços. A empreitada dos crimes. Narrativa de uma Cauassu ao nosso repórter, com uma foto da cangaceira Anésia Cauaçu ao lado de uma criança. Na primeira página e nas páginas internas do jornal, Anésia narra a trajetória da família Cauaçu cuja grafia da época se escrevia Cauassu, dando conta de que seus familiares eram simples agricultores e comerciantes e que se tornaram cangaceiros por conta de uma vingança.
Em Ituaçu, antigo Brejo Grande, na Chapada Diamantina, duas famílias disputavam o poder local: os Silvas, chamados de "rabudos", e os Gondins, denominados de "mocós”. O major Zezinho dos Laços (um dos líderes dos “rabudos”) exige que Augusto Cauaçu acompanhe seu grupo de jagunços em uma emboscada contra a família Gondim. Por conta da recusa de Augusto, este é assassinado a mando de Zezinho dos Laços. Então, a família Cauaçu se reúne e resolve vingar a morte, assassinando Zezinho dos Laços seis anos depois em uma tocaia na Fazenda Rochedo. Chefes dos “rabudos”, a exemplo do coronel Marcionílio de Souza e de Casseano do Areão passam a perseguir e matar membros da família Cauaçu e de seus aliados, comandados por Anésia e seu irmão José Cauaçu. Pressionado pelos coronéis, o então governador da Bahia, Antônio Muniz, denomina o movimento armado dos Cauaçus de "conflagração sertaneja” e envia para Jequié mais de 240 soldados em três expedições da polícia militar da Bahia, com participação inclusive de oficiais que combateram na Guerra de Canudos, a exemplo do tenente-coronel Paulo Bispo. Ocorre então a Guerra do Sertão de Jequié, conflito envolvendo os cangaceiros Cauaçus, policiais militares e jagunços dos coronéis. A força policial pratica uma série de atos violentos não só contra os cangaceiros, mas também contra a população inocente de Jequié e região. O alferes Francisco Gomes – Pisa Macio obriga um homem a comer lama no povoado do Baixão, crucifica outro nas margens do Rio das Contas e lança crianças para o ar,que são amparadas com a ponta das baionetas e levava suspeitos para um pequeno morro no Curral Novo onde eram sangrados com requintes de perversidade. O local ficou conhecido como Morrinho da Matança.
O genocídio é denunciado pelo Jornal A TARDE, que envia um repórter para fazer a cobertura das expedições policiais em Jequié e na ocasião entrevista Anésia Cauçu, dando destaque a sua narrativa a respeito da história do bando e do histórico conflito daquele ano de 1916.
Anésia Cauaçu foi uma mulher que esteve à frente do seu tempo. Foi a primeira mulher nordestina a ingressar no cangaço, uma vez que em 1911, ano do nascimento de Maria Bonita, Anésia já lidera um bando de mais de 100 bandoleiros. Ela também foi a primeira no sertão de Jequié a praticar montaria de frente, já que as mulheres de sua época montavam de lado em uma sela denominada silhão, e a pioneira das terras jequieenses a vestir calças compridas (as mulheres do período em ela viveu apenas usavam vestidos e saias), para facilitar o combate em cima do cavalo. O historiador Emerson Pinto de Araújo, que registou a história da cangaceira assim a descreve: “era uma mulher branca, de olhos azuis, bons dentes, alta e delgada, que tomava suas pingas, sem que ninguém ousasse faltar-lhe com respeito. Numa época em que não existiam academias de defesa pessoal, ela tinha ginga de corpo, conhecia- ninguém sabe com quem aprendeu - os ´rabos-de-arraia da capoeira, batendo forte nas fuças de muitos valentões que tentavam avançar o sinal. Manejando armas de fogo com uma pontaria invejável, jogava pra escanteio os melhores atiradores. Certa feita, bafejada pelo acaso, numa distância de trezentos metros, cortou o dedo do sargento Etelvino, quando este indicava aos seus comandados a direção em que deveria atacar”. Com base na memória coletiva de tradição oral, em documentos escritos e no meu imaginário, escrevi um romance histórico que tem como protagonista Anésia Cauaçu. Inspirado neste texto ficcional, o poeta e cordelista José Walter Pires produziu um livro de cordel e o compositor e cantor Jonas Carvalho compôs uma música sobre a saga de Anésia Cauaçu. Diversos estudos acadêmicos foram e estão sendo desenvolvidos sobre essa guerreira do sertão de Jequié. A entrevista publicada em 25 de outubro de 1916 e as matérias publicadas pelo Jornal A TARDE há 100 anos sobre os conflitos na região de Jequié constituem relevantes documentos da história do coronelismo e do cangaço na Bahia.

Por, Domingos Ailton

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Atilano pereira de almeida Sexta-Feira, 01/06 às 23:06

Estou curioso nesta epoca que Anesia Cauçu lutava contra os coroneis. Meu avö conhecido comovLuiz Aluar rezador garrafeiro. Casado com. Minha Rosa tambem rezadeira..conta que vovo foi montado no seu burrinho fazer compras. Quando foi cercado pelos jagunços de acho que foi de Manoel Leoncio .e o levaram para o local chamado açougue,humano para esfola-lo. Segundo meu pai que contava esta historia. Ao margear o rio das contas deram um espaço e ele pulou no rio na epoca estava cheio ele nadou rezou. Os parabelo falhou",nao saiu um tiro, e os jagunços gritaram com meu avö "um dia vamos nos encontrar cascave. Depois uma senhora com problemas mentais saia grande e rodada e encheu de balas mascada(ou pisada).tinha um filho dele que era audacioso sumia quando era persseguido chamava. JOAÖ ALUAR ERA MEU T?O. CRE?O QUE EX?ST?A UM ELO. DOS MEUS AVOS COM A JUST?CE?RA ANES?A CAUAÇU.. Me criei no extremo sul baiano.meus ja haviam falecidos, Eu ,meu Cunhado e duas irmas fomos a jequie. Saber informaçöes dos meus avos. Porem encontramos uma amiga da minha mae e nos disse que o seu marido conheceu vovö Luiz Aluar nao podia nos da informaçaö pois o mesmo havia morrido.acho por meus avos morar na mesma regiaö conflitante. Eles conheceram a justiceira Anezia. Cauaçu. ..
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Gildasio Domingo, 23/10 às 14:10

Muito interessante, é bom reviver essas histórias de um povo sofrido, mas que ao mesmo tempo havia o respeito e a dignidade.
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